domingo, 26 de outubro de 2008

Dias

E o grito do desesperado
É da boca pra dentro, pr’alma.
O que sai pra fora é o silêncio
De quem grita em pé de ouvido surdo.

A máscara esconde o rosto
Ou será que esconde o espírito?
Disfarce de camaleão em selva de concreto
É se fingir de morto em alguma lata de lixo.

Olhos vendados são vendidos
Pelos comerciantes na TV.
Toda a população compra
Só pra se privar de ver.

Chicotes são dados e chicotadas distribuídas
A população sente o couro, a carne ardida.
As feridas podem cicatrizar um dia
Mas as dores das marcas ainda serão sentidas.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Sistema judiciário

Ser condenado por se ser quem é
Sentindo o peso da própria existência
A esmagar o corpo magro
Em almofadas de concreto e aço.

Estar preso à sua própria liberdade
Num eterno ir e vir.
Brincando como se brincam as crianças
Vai e vem, vai-vem.
Balançando no balanço da vida
Indo e vindo
E não saindo do lugar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Artistas da vida

A maquiagem não servia, de todo, para esconder as marcas com que a idade os havia presenteado; antes servia para que apagasse seus medos, suas preocupações e angústias. No palco, faziam o contrário de todo ator: deixavam finalmente de representar, para ser, por fim, quem realmente eram.
Debaixo das luzes dos holofotes fica-se cego, ou enxerga-se mais do que se deveria enxergar. Os julgamentos são extintos, a platéia finge não existir. ‘Ó, glamour do palco, não nos deixe!’, Rogam os artistas apaixonados, veneradores de um deus de madeira e pregos, cortina e corda, luz e sombra; um deus que permite àqueles que lho crêem a dor, o sofrimento e as mágoas; contudo, entrega-lhes de mãos estendidas, a cura para a doença, o perdão pelo crime e pelo pecado; deus que dá amor em vez de castigo, que é amigo em vez de inimigo, deus que não é pai, é irmão, esposa e marido.
Porém, o show tem hora para acabar, e os artistas fatigam-se; faltam-lhes as vozes e tremem-lhe as pernas. Uma pena, o martírio recomeçará; a rotina voltará a atacar e só lhes restarão os ensaios para que possam se libertar e parar de atuar.

domingo, 14 de setembro de 2008

O sobrado do fim da rua 2

No fim da rua, sobrou um sobrado.
Sobrou um sobrado no fim da rua.
Além do sobrado, sobraram lembranças
Amores e ódios
Alegrias e tristezas.
Tudo isso que sobrou
Sobrou com o sobrado
O sobrado do fim da rua.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

De volta ao pessimismo

Os prédios caem uns por cima dos outros
Amontoando-se em ódio e desgraças
Os jardins, com as flores e as roseiras, estão soterrados
Escondidos debaixo de uma espessa fumaça
Que se ergue aos céus em meio ao sonho e à esperança
Separando-os em um e em outro.
À tarde, não se vê mais a luz alaranjada do sol
Ou é noite, ou as nuvens cinzentas encobrem o infinito azul celeste.
Às crianças restou o concreto
Aos adultos, a culpa.
Ninguém ousa levantar a cabeça
Todos choram pelo ocorrido, com os corações apertados.
O próprio sonho se tornou uma utopia
E viver, um castigo divino.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Cérebro de minhoca

Não sei se são meus olhos
Ou se o relógio está adiantado,
Mas já é noite, e o céu continua claro.

Talvez seja a lua,
Que hoje brilha como o sol nos dias quentes.
Eu não sei o porquê.

Tem tanta coisa que eu não entendo
Que eu já deixei de tentar entender.

Deve ser melhor não saber de tudo.
Não conhecer tudo.
Porque assim há sempre algo a ser conhecido
Algo para surpreender os olhos velhos
E acordar os cansados.

... Que injustiça!... Onde ficam os cegos nessa história?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Uma tarde sentado na beira de uma rodovia federal

A água corre suave no rio
Nem parece existir correnteza.
Essa idéia muda no meu ato de mergulhar
E tentar inutilmente nadar contra a inércia das águas.

Quem vive na cidade se desacostumou com a vida no campo
Com a vista serena dos regatos e das árvores
E o canto perene dos pássaros.

Quem vive na cidade esqueceu que a vida floresce
Lembra apenas que a vida corre e que o tempo é precioso
Não porque é tempo, mas porque é dinheiro.

E no campo, as árvores balançam à menor brisa
Dançando conforme a música
Em sincronia perfeita.

Os pássaros voam
E cantam com os grilos
Num coral de vozes hipnotizador.

Tédio é trabalhar
E o tempo passa lento
Para aqueles que o sabem aproveitar.

Indiferente à cidade é o campo
E tudo o que lá acontece
Recebe de bom grado a indiferença dos seus irmãos da cidade.

No campo, se mantém a essência
Na cidade, ela foi perdida
Longa é a vida no campo
Na cidade, derradeira.